Entre-Meios-Tons


Já tinha de mim mesmo encontrado o que muitos nem se dão conta. Já sabia quais pegadas eram minhas, quais estrelas havia lançado ao mar, qual dos meus dois cães mais alimentar e até mesmo qual acorde solfejar. Já sabia, do meu paladar, o meu melhor sabor e sabia de cada sentido a melhor sensação. Que dois litros d’água ao dia faz bem, eu já sabia, que comer adequadamente melhora a minha vida, também já. Que sol de menos ou de mais faz mal, estava cansado de saber.

Mas ali, naquela pauta, em plena Clave de Sol, em compasso quaternário, bem no meio daquela canção, de acordes tão sonoros, entre o mi e o fá me aparece um sustenido, ou seria um bemol?

Seria algo para destoar qualquer dó maior, mas, ao contrário, deu uma sonoridade que sequer antes existia. Era um ‘entre-meios-tons’ que me encontrava, trazendo consigo uma nova sonoridade. Lá, nesse lugar ouvi meu nome. Se, não havia antes ou depois dele, ou mesmo qualquer expressão condicionante. Até porque, poderia se encontrar fenômeno semelhante nesse lugar.

Nesse novo tom, um novo acorde se formou. Para ele não há oitava acima ou oitava abaixo, não há maior ou menor. Ele é algo tão especial que liga o meu ser à descoberta do que já existia e ao surgimento do que ainda não havia.

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Pés Descalços


Eu que só ando calçado deixei os pés descalços, pois ali era Terra Santa.

Os pés tocavam uma fina e macia areia dourada. Som nenhum ali havia, só uma sinfonia de silêncio tão harmoniosa quanto a própria Perfeição.

Cada pequena parte de mim podia se sentir como em um abraço inteiro, como se imerso em uma presença estonteante, como em um aconchego de todo o ser.

Sentia o doce sabor daquela leve brisa, um sabor tão suave que dele para sempre provaria. Alimentado por ela, sentia-me preenchido, cheio do mais puro Bem, pleno, perfeito.

Tudo ali era vida, tudo ali era bom, tudo ali era eterno, tudo era leve, tudo era belo, tudo era harmonia.

Não havia tempo. Não havia dualidade entre o bem e o mal.

Terra Santa meus pés tocavam. Fina, macia e áurea areia do Eterno perfeita, de grãos tão finos e vivos quanto nossos sonhos ali revelados, nossos caminhos desvendados, nossa história sem lacuna alguma contada.

Pelo reflexo de líquidos grãos transpassado por aquela brisa, envolto naquele abraço, eu tinha a mim mesmo o véu do meu próprio eu rasgado, estando novamente desnudo enquanto criação.

Meus olhos ali jamais se ergueriam ou se pulverizariam diante de tamanho brilho da Pura Perfeição. Não que ali estivesse, era. E sendo, de todo me tomava e me preenchia e me recriava.

Tamanha era a presença Daquele Ser Estonteante. Era.

Sua silenciosa paz pairava pelos ares. Sua perfeita sinfonia era silêncio. E tudo o que saía de Sua boca me transformava.

Percebendo desnudo meu ser e minha existência, quis pedir. Mas, gradeci.

E o brilho foi desvanecendo, a brisa cessando e o silêncio dando lugar a um ‘bip’ agora ritmado. Voltei.

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Dente-de-Leão


De dentro para fora é como bate o coração. De dentro para fora é como viemos ao mundo. De dentro para fora é como nos expressamos. De dentro para fora é como nos curamos de qualquer enfermidade. De dentro para fora é a única forma que podemos amar.

Presumo então que o que temos de mais precioso, de mais extraordinário está lá, lá dentro. Lá naquele emaranhado de emoções, crenças, cicatrizes é que habita nosso maior e mais inestimável tesouro, cercado, entremeado, permeado por uma gama de sentimentos que definem quem realmente somos. Talvez um baú fechado ou mesmo um livro aberto. Talvez uma única flor Dente-de-Leão.

Tocá-lo é uma insólita viagem. Chegar lá, tão fundo, no que seria um antiabismo, uma experiência singular para qualquer vivente. Compreender a si mesmo, encontrar seu mais puro e sincero propósito, desvendar seu destino, encontrar seu elo perdido.

De repente tudo toma cor em viva luz, tudo faz sentido, nada é omitido.

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Âmago


A tez, o cheiro, o gosto, o toque na pele. Não sei explicar a necessidade de escrever o que só se pode sentir, experimentar, viver. É uma ânsia, uma gana, um vil querer! Parece que se não flui, explode, que se não cria asas, cai, desaba no abismo do lugar comum. É um nó na garganta, um aperto no peito que só passa quando respira. E quem respira vive e quem vive sente, não sente?

E não basta pôr no papel a cor, o aroma, o sabor, o tato… é imperativo que os sinta quem se propõe à experiência de ler. Preciso que sintam, compreendam, se emocionem. Se não, do que adianta? É como chupar manga e não se lambuzar, ver um cãozinho e não brincar, ter uma criança e não chorar.

Quero a mente aberta, o coração explodindo, a alma em frangalhos, os olhos a brilhar, o arrepio do dorso, frio nas mãos e um mundo paralelo onde cada palavra seja lúdica, espontânea, versátil e coberta, completamente envolvida, por uma massa fluida de sentidos e sentimentos.

E só quem lê pode fincar essa bandeira da conquista desse novo território para quem escreveu. É uma realização alheia, anônima, sorrateira que se denuncia num sorriso, num olhar. Ah se eu pudesse, entregaria a cada leitor um texto de cada vez em folha de papel escrito à mão. E assim contaria minhas histórias. E ficaria por ali, por perto, oculto para perceber, “in natura”, a reação de quem leu.

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Sutil Linha em Contorno


Se as curvas são mais acentuadas, as retas são mais longas. De onde o sol é nascente até o seu poente é só um lance de olhar.

Desloca a lua no firmamento de quarto em quarto em mudo transe de sua existência. Lança ao seu lado escuro um berro esperando ouvir seu grito singular.

De cima vejo o contorno das costas, de baixo o dorso dos montes e no horizonte a linha sutilmente curva que revela nossa essência solene de viver.

Fartas cores, tantos sons, e a vida nos salta aos olhos e pulsa o coração.

Três tucanos atravessam o céu. Sinal de sorte, sorte ainda tê-los. Três sinais nos calçam o chão. Três pedras apontam o caminho. O caminho nos leva macio em suave travessia. Pouco importa de que lado se vem ou para onde se vai, este ainda será…, um dia. Aquele se foi, já não existe. Importa a estrada, o caminho, o agora. Já é o bastante, todo o mais não nos pertence, não nos cabe, não nos convém.

Olhar para o chão e ver seus pés tocá-lo a cada instante em ritmo cadente é libertador, curador, pura energia, luz. É divino.

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Por Onde Passam, Serras, Cerrado


Não fosse a seriema, o tamanduá, o lobo-guará, o que seria? Seria um cerrado todo errado. Por onde andam levam aquela beleza sutil da natureza.

Por onde passam, tudo o que tocam se transforma. Abrem-se flores, deitam-se rios, estendem-se copas, brotam-se histórias, lendas, sendas. Estaria maior beleza no canto estridente, no porte altivo ou na língua comprida? Torna-se belo tudo o que tocam, tornam-se eternos por onde passam.

Feliz é a memória de quem ali os tem, de quem um dia os viu.

Por trilhas mil por onde já passei aquele canto impera ao vento, outro, mais silencioso se farta de insetos e outro, furtivamente, caça como se pairasse acima e sobre o tempo.

Ali tempo não há. Há terra, há mato. Há quem queira estar, ou quem insista em ficar. Ali há chuva, há rio. Há pedra, há pó. Há vento, há frio. Há sol, há calor. Mas tempo não há.

Dessas serras, desses cerrados, vêm lendas, vêm histórias, canções, poemas… vem Guimarães, Drummond, João e José. Também Bandeira e Guará.

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Melindros de Um Ser


Melindros de um ser,

sem esperança,

nos faz crer

que jamais, dia algum,

o sol voltará a nascer.

 

Olhando para si,

bem no fundo,

na alma,

descobriria o mundo.

 

Santo ou pagão, teria na mente jamais a certeza

entre o sim e o não.

 

Já no coração,

descobria, uma certeza irretocável

de qualquer nota daquela canção.

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