Dente-de-Leão


De dentro para fora é como bate o coração. De dentro para fora é como viemos ao mundo. De dentro para fora é como nos expressamos. De dentro para fora é como nos curamos de qualquer enfermidade. De dentro para fora é a única forma que podemos amar.

Presumo então que o que temos de mais precioso, de mais extraordinário está lá, lá dentro. Lá naquele emaranhado de emoções, crenças, cicatrizes é que habita nosso maior e mais inestimável tesouro, cercado, entremeado, permeado por uma gama de sentimentos que definem quem realmente somos. Talvez um baú fechado ou mesmo um livro aberto. Talvez uma única flor Dente-de-Leão.

Tocá-lo é uma insólita viagem. Chegar lá, tão fundo, no que seria um antiabismo, uma experiência singular para qualquer vivente. Compreender a si mesmo, encontrar seu mais puro e sincero propósito, desvendar seu destino, encontrar seu elo perdido.

De repente tudo toma cor em viva luz, tudo faz sentido, nada é omitido.

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Âmago


A tez, o cheiro, o gosto, o toque na pele. Não sei explicar a necessidade de escrever o que só se pode sentir, experimentar, viver. É uma ânsia, uma gana, um vil querer! Parece que se não flui, explode, que se não cria asas, cai, desaba no abismo do lugar comum. É um nó na garganta, um aperto no peito que só passa quando respira. E quem respira vive e quem vive sente, não sente?

E não basta pôr no papel a cor, o aroma, o sabor, o tato… é imperativo que os sinta quem se propõe à experiência de ler. Preciso que sintam, compreendam, se emocionem. Se não, do que adianta? É como chupar manga e não se lambuzar, ver um cãozinho e não brincar, ter uma criança e não chorar.

Quero a mente aberta, o coração explodindo, a alma em frangalhos, os olhos a brilhar, o arrepio do dorso, frio nas mãos e um mundo paralelo onde cada palavra seja lúdica, espontânea, versátil e coberta, completamente envolvida, por uma massa fluida de sentidos e sentimentos.

E só quem lê pode fincar essa bandeira da conquista desse novo território para quem escreveu. É uma realização alheia, anônima, sorrateira que se denuncia num sorriso, num olhar. Ah se eu pudesse, entregaria a cada leitor um texto de cada vez em folha de papel escrito à mão. E assim contaria minhas histórias. E ficaria por ali, por perto, oculto para perceber, “in natura”, a reação de quem leu.

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Sutil Linha em Contorno


Se as curvas são mais acentuadas, as retas são mais longas. De onde o sol é nascente até o seu poente é só um lance de olhar.

Desloca a lua no firmamento de quarto em quarto em mudo transe de sua existência. Lança ao seu lado escuro um berro esperando ouvir seu grito singular.

De cima vejo o contorno das costas, de baixo o dorso dos montes e no horizonte a linha sutilmente curva que revela nossa essência solene de viver.

Fartas cores, tantos sons, e a vida nos salta aos olhos e pulsa o coração.

Três tucanos atravessam o céu. Sinal de sorte, sorte ainda tê-los. Três sinais nos calçam o chão. Três pedras apontam o caminho. O caminho nos leva macio em suave travessia. Pouco importa de que lado se vem ou para onde se vai, este ainda será…, um dia. Aquele se foi, já não existe. Importa a estrada, o caminho, o agora. Já é o bastante, todo o mais não nos pertence, não nos cabe, não nos convém.

Olhar para o chão e ver seus pés tocá-lo a cada instante em ritmo cadente é libertador, curador, pura energia, luz. É divino.

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Por Onde Passam, Serras, Cerrado


Não fosse a seriema, o tamanduá, o lobo-guará, o que seria? Seria um cerrado todo errado. Por onde andam levam aquela beleza sutil da natureza.

Por onde passam, tudo o que tocam se transforma. Abrem-se flores, deitam-se rios, estendem-se copas, brotam-se histórias, lendas, sendas. Estaria maior beleza no canto estridente, no porte altivo ou na língua comprida? Torna-se belo tudo o que tocam, tornam-se eternos por onde passam.

Feliz é a memória de quem ali os tem, de quem um dia os viu.

Por trilhas mil por onde já passei aquele canto impera ao vento, outro, mais silencioso se farta de insetos e outro, furtivamente, caça como se pairasse acima e sobre o tempo.

Ali tempo não há. Há terra, há mato. Há quem queira estar, ou quem insista em ficar. Ali há chuva, há rio. Há pedra, há pó. Há vento, há frio. Há sol, há calor. Mas tempo não há.

Dessas serras, desses cerrados, vêm lendas, vêm histórias, canções, poemas… vem Guimarães, Drummond, João e José. Também Bandeira e Guará.

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Melindros de Um Ser


Melindros de um ser,

sem esperança,

nos faz crer

que jamais, dia algum,

o sol voltará a nascer.

 

Olhando para si,

bem no fundo,

na alma,

descobriria o mundo.

 

Santo ou pagão, teria na mente jamais a certeza

entre o sim e o não.

 

Já no coração,

descobria, uma certeza irretocável

de qualquer nota daquela canção.

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Por Aqueles Lados Andavam


Por aqueles lados andavam

em mulas pequenas e fortes seres inestimáveis que abandonavam

suas secas terras e seus alforjes.

 

O solo rachado

em concreto se transformava.

Aquele ser antes forte,

agora rechaçado,

pede alento a quem

certamente o amava.

 

Sossa Senhora,

os meus aqui se perderam, cuide, enfim, desta obra do Pai

que humildemente julgo ser.

Sei que de lá meus entes por mim clamaram,

pela pouca fé, que sei, ainda devo ter.

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Tanto Olho ao Redor


Tanto olho ao redor

que jamais poderia vislumbrar,

não sob aquele olhar,

um quinhão que fosse do que aquele melhor.

 

O Giramundo seria pois,

um vizinho ou um lugar?

Fosse um ou outro,

Gostaria de conhecê-los os dois.

 

Assim me perco na vida

buscando tudo e todos.

Uma saudade absurda que aperta

o peito sem vinda nem ida.

 

Ouvi em minha surdez

um forte e breve grito.

Daqueles que garganta alguma

conseguiria bradar qual fosse o rito.

E naquele sacro-santo momento fui assim

traído pela insensatez.

Mudez.

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