As Torres


Após muito andar rumo ao sul, de Santiago, pela Carretera, em certo momento ela simplesmente finda em um pequeno vilarejo. Já muito estreita ela acaba. Poucas casas, rara beleza, moradores fascinantes com suas histórias daquela região. O Pacífico ali ao lado, acarinhando com leveza a areia. Trazendo à paisagem um azul estonteante se misturando com o céu no horizonte. Brancas nuvens desenhavam no céu formas abstratas, algumas, com uma dose de imaginação poderiam reconhecer alguma forma de animal.

Já eram muitos quilômetros percorridos, mas o fim daquela estrada que nos guiava, não ditava nosso destino. Este estava lá ainda mais na parte inferior do mapa que havia em mãos. Mais algumas dezenas de milhares de metros deveriam ser cumpridos. Como já planejado, ficaríamos ali. Creio, a essa altura, que não só pela condição de completa exaustão do corpo, mas para alimentar a alma do que vinha daquela gente tão simples, mas que nos convidara com o coração tão aberto.

Contavam histórias lúdicas do mar, fantasias sobre seres das montanhas e mais tarde, depois de algumas taças de vinho, falavam de suas vidas, família e filhos. Dos que ali nasceram e por ali passaram toda sua vida. Os que da cidade fugiram e lá se esconderam. Anoitecera cedo, era tempo de longas noites, por isso os dias deveriam ser bem aproveitados. Frio. Fomos dormir com uma sensação macia ao coração, além de limpos, bem alimentados, aquecidos ao calor da lareira e acolhidos em aposentos daquelas casas. E eram as casas, os aposentos daquelas pessoas de gestos imensamente generosos, que sem saberem nos davam nova vida ao último trecho de nossa viagem.

Naquela conversa noturna achávamos que tínhamos dissuadido aqueles novos amigos da preocupação em nos servir o desjejum matinal. Planejávamos muito cedo estar de pé, prontos para o início daquele trecho de caminhada. Qual a surpresa quando saímos dos aposentos de descanso e nos deparamos, igualmente nas diversas casas que nos acomodaram, com farta mesa posta para que saíssemos dali devidamente alimentados, com energia necessária ao que a jornada nos exigiria. Aprendemos com eles que a melhor forma de agradecer seria receber aquele presente, tão delicadamente servido, ofertado com tanto carinho. Aceitamos, agradecemos, as mulheres choraram, quase todos os homens também. Ao juntar o equipamento, ajustar as mochilas, fomos percebendo porque tamanha comoção de sentimentos. Em um lugar tão frio, pessoas tão calorosas. E o dia que se apresentava mansamente já estava claro, e claras seriam as geleiras que alcançaríamos, e era isso que nos tomava todo nosso ser. Entraríamos em terra de gelo, e ali tínhamos recebido todo o vigor que precisaríamos para continuar. A ponta do nariz parecia que quebraria a qualquer momento com aquele já gélido vento, muitos já não tinham uma unha sequer nos pés. Mas nossos ânimos estavam renovados e nosso objetivo haveria de ser cumprido.

Rumando ao sul fomos em persistentes passos, cada vez mais pesados. Quem de terra quente imaginaria aquilo. O frio que o vento trazia, a sensação do vento no rosto quase todo coberto, ímpar. Depois de quase dois dias de caminhada avistamos os já perceptíveis tons azulados daquelas montanhas de gelo. Parecia, ainda ao longe, grande escultura, com sulcos e reentrâncias perfeitamente esculpidas. A distância a ser cumprida, que já era reduzida, parecia intransponível. Uma barraca mal instalada na segunda noite trouxe com a umidade e efeito hipotérmico a um dos companheiros. Um terço da trupe teve que prestar socorro e retonar até o ponto de apoio mais próximo, onde um helicóptero de resgate pudesse recolhê-los. Assim foi feito. E nada mais grave sofrido.

Entretanto o fato de aquelas pessoas terem retornado já sinalizava nossa fragilidade frente às condições que a natureza nos impunha. Exauridos de todas as nossas forças ao final de cada dia, mãos feridas, pés em bolhas, a dificuldade de locomoção naquele terreno fofo de gelo. Tudo nos fazia crer, naqueles momentos, que não conseguiríamos ultrapassar aquele limite que havíamos nos proposto. A face de cada um indicava o desalento que vivíamos ali, quando tudo parecia perdido e a noite caía.

Ali não havia moleza, não havia conforto, não havia o mínino do que estávamos acostumados em nossa vida diária. Para comer havia nossa comida de viagem, por natureza escassa. Ao menos bem calcula ela foi, para o tempo que necessitaríamos dela. Casa? Não barracas bem estacadas na neve para que o vento da noite não as levasse com rajadas de neve. Falemos da cama quente: um saco de dormir posto em cima de um material que tenta e acaba conseguindo isolar o frio do chão, mas isso numa largura de 50 cm talvez. Mas é claro que todos dormiam limpos, asseados que eram por boa educação. Claro, é simples derreter gelo para ter água, mas tirar a roupa para tomar banho, melhor não. Foram dias sem esse regalo, dias.

Mas à medida que sentíamos o corpo se recuperando do cansaço o humor coletivo, como que por encanto, ia se transformando. Depois de estabelecidos em algum ponto seguro, depois de poder sentar, deitar, sentir o corpo imóvel para poupar esforço de qualquer natureza e poder aproveitar aquele breve momento de completo ócio regenerador, o sorriso brotava nos lábios. Aí vinham as histórias do dia, as aventuras, os vexames, as dificuldades vividas naquela natureza selvagem e as vitórias alcançadas ora só, ora com a ajuda de muitos. Corpo alimentado, alma lavada por aquele céu nunca antes visto em lugar algum, indescritível. Parecia que as estrelas saltavam em nossa direção a nos saudar. Durante o dia só se fazia ouvir o arfar de cada um, gemidos, no máximo uma tentativa de cantarolar algo para marcar o ritmo dos passos. O que não durava muito, não só pela dificuldade de respirar aquele ar gelado, mas pela dificuldade de manter a constância de qualquer movimento. Parecia que a tendência de tudo era de cessar o movimento, que tudo ali deveria de estancar, parar e ali ficar. Parecia que a natureza entendia que tudo que ali entrava, ali pertencia. E naquele momento, na escuridão da noite que a luz da fogueira mal conseguia quebrar, todos se sentiam assim, pertencentes àquele lugar, sob o manto cravejado de brilhantes de Deus Pai. E com tamanha paz dominando o ser, o coração e a alma, poderia se deixar levar pelo sono e descansar com a certeza de estar no lugar certo.

Crescente euforia tomava todos de forma avassaladora, aquelas paredes imensas de gelo azul iam se tornando cada vez maiores pela proximidade que tomava. Não haveria nada que nesse ponto fizesse qualquer um se sentir incapaz de terminar aquela jornada. Toda a beleza que explodia aos nossos olhos nos tomava a emoção. Ainda dois dias nos restariam, mas agora estava ali, à nossa frente, aquele maciço azul e branco, branco azulado, algo demasiadamente belo, perfeito em suas formas, em sua altivez, pleno.

Chegamos, dias após nossa partida, chegamos. Contra muitos dos prognósticos feitos, chegamos. Contra nossa crença de que não conseguiríamos, chegamos. Apesar da distância de centena de quilômetros, da inexperiência em terras geladas, em geleiras, do frio do ar, da fragilidade do corpo, da agitação da mente, do desespero em momentos de iminente perigo, chegamos. Conseguimos, vencemos. Vencemos nossas próprias espectativas, superamos nossos próprios limites, estabelecemos um novo limiar para nossa existência. Ampliamos nossa capacidade de compreensão, alargamos as fronteiras do coração. Aprendemos a ser mais presentes, que a companhia faz toda diferença. Aprendemos que a mão que ora rebocamos, é a que nos rebocará logo ali adiante. Que quem empurramos aqui, será o que nos puxará do próximo fosso. Aprendemos, essencialmente, que só chegamos porque nosso coração foi à frente e que ele só conseguiu chegar porque estava cheio, alimentado, suprido da Fonte da Vida.

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2 respostas a As Torres

  1. Andressa Dias diz:

    Continue escrevendo pois ja sou sua fã , estou adorando e gostaria de saber de onde vem tanta inspiração?….Parabéns. Bjs

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    • amorinis diz:

      Oi, Andressa!
      Fico muito feliz em ter me prestigiado com sua presença aqui.
      A inspiração vem do coração, de experiências vividas, vem da vida.
      Venha sempre ler o que estará por aqui. Sempre haverá algo diferente.
      Até mais.

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