Privacidade



Alguém aí tem filho nascido no século XXI? Deixe estar. Pode ser nos anos 90. Por bem pensar e para evitar represálias abro a possibilidade dos nascidos nos anos 80 e até 70.
A pergunta do dia é: quem tem privacidade? Alguns nasceram sem ela e ainda não a conhecem. Quiçá um dia conhecerão.
Imagine sua casa, seu lar. Você chega de um dia cansativo de trabalho, deixa as coisas que vivem dependuradas pelo seu corpo todos os dias, quase o dia todo, que praticamente fazem parte de você, no canto da sala. Quando se levanta e olha á sua frente, o vizinho do prédio ao lado, que tem a janela da sala de frente para a sua, que por algum motivo estranho já está assistindo TV o olha com sinal claro de reprovação, já julgando que seja alguém completamente desorganizado.
Tudo certo, tranqueiras devidamente alojadas ao lado, junto e sobre o sofá. Hora de matar a sede. Você vai até a cozinha, abre a geladeira, eu não tem dispensador externo de água gelada, saca dela uma garrafa d’água que deixou gelando mesmo antes de tomar o café da manhã. Digamos que por pura pressa e pelo desespero da boca seca, sem falar do irritadiço cheiro de poeira poluída da cidade que penetra as entranhas do nariz, você impensadamente sorve aquele delicioso líquido gelado, embora completamente insípido para o seu bem, pelo gargalo da garrafa. Em meio a longos e prazerosos goles, pela pequena abertura que a janela da cozinha permite, a outra moradora do mesmo andar, do lado oposto do vão de ventilação do prédio o surpreende. Mesmo sendo uma velhinha já centenária, consegue você ler os movimentos dos lábios de tão doce senhorinha: ─ Como é porco esse homem!
Tudo bem, tudo há de melhorar! Um banho e tudo estará resolvido, isso tudo ficará para trás.
Chuveiro quente ligado, o vapor vai tomando conta do ambiente. Alguns minutos e seu banheiro já é praticamente uma sauna, pelo menos assim o sente. Longos minutos de água quente, quase perdido em meio àquele denso vapor, quase um sonho. Sabonete cheiroso, xampu cremoso, toalhas limpas e macias ao sair do chuveiro. Maravilha! Ainda mais, ninguém de olho em você durante todo esse tempo!
Tudo bem. Você sai do banheiro enrolado pela cintura à toalha, percorre o corredor e logo que entra em seu quarto ouve alguém gritando: ─ Credo! Ainda bem que daqui a pouco é a sua mulher.

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Uma resposta a Privacidade

  1. Giulia diz:

    Olhos, olhares…velozes, velados, sutis, escancarados! Nos despem o corpo e a alma, os segredos e os desejos. Nos tiram a roupa, o sossego, a calma, os nervos.
    Quem inventou a privacidade, esqueceu de colocar no rótulo o prazo de validade: até o dia que um profundo olhar te encontre!

    Gostar

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