O ar, o mar, meu amar


E era o mar que que tocava a praia, e era assim o limiar da vida. O sol e a chuva nos trazia os tempos, e assim facilmente entendíamos o que fazer a cada momento. Nos dias de sol tínhamos a praia quente, o vento sul, o mar aberto, o céu azul. Nos dias de chuva, nos recolhíamos para um lugar seguro, que nos garantisse, onde podíamos ainda sonhar com o futuro.

E era assim ver aquele mar, um dia claro, quase azul, outros dias cinza sem que maior perigo representasse. Em dias de ressaca, mantínhamos distância e isso era tudo o que fazíamos. Tínhamos um porto, tínhamos um ao outro, tínhamos nossos faróis, três. Mas sempre a brincar ali, no limiar.

Víamos as ondas, não vivíamos sem elas. Traziam graça a nossa vida, sempre fazendo parte dela, mas nunca levando a pique. Mergulhávamos às vezes naquelas águas, ondas furávamos tantas outras, mas sempre assim de forma a não afundar.

Um dia o tempo escureceu, a ressaca veio e bateu. Tudo era estranho, tudo era meio insano. A chuva caiu, o vento virou, levando tudo, sacudindo ainda mais aquelas ondas, tudo mudou. Aquela linha, a fronteira onde nos mantínhamos veio e nos engoliu.

Agora estávamos de lá, onde não tocávamos, onde evitávamos, onde éramos vulneráveis, sensíveis. Era o mar da vida. Profundo, denso, tenso, puro. Era tudo o que não víamos de fora, da praia. Intempéries eram tão somente pequenos atritos, pequenas dificuldades. Ali, naquele lugar profundo onde as ondas revoltas do momento nos jogavam para ainda mais para seu meio éramos tão somente sentimentos, emoções, princípios, valores, essência, fé. Ali não nos afetava tempestade de vento, nem os efeitos do tempo. Ali éramos nossos egos se dilacerando, a oportunidade de deixar o orgulho naquelas profundezas e sairmos mais puros.

Mas aquele momento era de estarmos sós, veio uma corrente daquele mar levando-me para um lado onde era só meu, soltando nossas mãos.

Lá estavam meus próprios monstros, medos, fragilidades, minha escuridão. Um lugar profundo, sombrio. Mas só há sombra onde há luz. E da fé veio a certeza de que era aquele o meu momento. Mergulhei. Me deixei levar. Viajei por entre tudo o que temia, o que via era muitas vezes agonizante, aterrador. Duras eram as visões, emoções turvas, sentimentos disformes. Ali habitavam seres dos quais jamais me lembraria se por ali não tivesse percorrido, viajado, transgredindo minha segurança, afundando naquele oceano tão profundo.

Olhando para todos aqueles seres, comecei a reconhecer algo familiar. Era eu, afinal eram meus todos eles, seres alados, seres flamejantes, seres de dor, sofrimento e angústia. Aquele mar eu meu, aquele mar era eu. E tudo que nele habitava.

Quanto mais olhava, mais por dentro eu me via, conhecia. Quanto mais eu mergulhava, mais me percebia, sentia. Quanto mais por entre e por dentro daqueles seres eu viajava mais seguro ficava de mim mesmo. Quando dei por mim percebi que aquela viagem era o que me levaria ao meu real mundo, onde as chuvas me molhariam, mas sobretudo o sol, o vento e o tempo viriam me secar. Entreguei-me de corpo e alma a esta viagem. Olhei bem ao fundo, mas não podia escolher, já havia um caminho a percorrer.  A fé me guiava e sustentava de algo como que o ar, para que pudesse continuar. Pelos seus olhos entrei, por seu interior me deixei. Conheci, aprendi, vi, revivi, mudei. Tantos seres daqueles, tanto de mim. Tudo aquilo era meu, tudo era eu. E assim me vi, assim pude ler-me por dentro, refazer-me, orientar.

Somente a fé permitiu-me ali viver naqueles tempos, tanto tempo. Princípios se fortaleciam, o coração curava, a sangria, antes desatada, agora coagulava. O que era pruído se renovou. O que era meu se purificou. A fé me curou. Meu oceano agora claro, me convidava a nele sempre profundamente mergulhar, numa apneia revigorante, que me adestrava a conseguir ir cada vez mais fundo e depois conseguir voltar a superfície, às mansas ondas da superfície.

Mas como só fui, só emergi ao sol, depois de tão curadora viagem. À praia vi quem a mão me dava quando afundávamos. A viagem que tive, não quis. Ainda tendo sido levada pela mesma ressaca daquelas ondas, pela mesma tempestade, para a mesma escuridão. À praia voltou e esperou, e ali talvez ainda permaneça. Olhando o mar, sem se ver no que ele abriga, esconde e alimenta. O cão bravio não quis amansar e a vida a passar. Vento que vem e tempo que vai. E a vida… nem digo do amor.

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