Por Baixo das Folhas


Estranha aquela súbita necessidade, aquele sentimento incerto de que algo há mas não está, de que as coisas conjuram para um fim, mas ainda não se sabe se se passou do meio. Ir sem saber o chegar, olhar sem saber o ver, mas aquela necessidade que surgiu e ficou.
Precisava de um rastelo, mas não tinha. Nem sabia para que, queria um rastelo, fato aquele que me surpreendia, estranhava. Veio de um sonho daquela noite talvez, não lembrava de ter sonhado, nem bem, nem mal. Uma lembrança poderia ser, busquei na memória em vão. Nada lá. Uma cisma, alguma mania poderia ter me atacado naquele dia. Mas era manhã, dia novo, dia comum, um dia qualquer. Busquei pela janela uma explicação, sol não era, não tinha. Chuva também não, só mais um dia, nada de mais. Mas o rastelo na mente persistia. Inesperado sentimento, inexplicável necessidade. Sentia aquilo. E era real, era presente no coração e na mente.
Corri a casa, olhei pelas janelas, busquei algo que pudesse me sugerir aquela ideia. Na vizinhança também nada havia, nem da casa à padaria. Nenhum canteiro pelo caminho, nem mesmo um. Começou incomodar, havia algo diferente, só podia. Seria talvez um sinal, algo que lembrasse de algo esquecido, já experimentei isso antes. Mas um rastelo?
Já de volta à casa recolhi-me em mim mesmo. Um banho, roupa trocada, café novo no bule. Um aroma gostoso pela casa de café e o pão de queijo no forno que já se pronunciava. Cozinha limpa, geladeira abastecida, planos para uma massa no jantar, mesa posta para o café. Só eu.
E o rastelo…
Continuava passeando pela minha ideia, mais que isso, uma necessidade. Subitamente pela manhã. Havia de ter sentido, nem sabia.
Fui, o dia correu, a vida andou, o mundo girou, a lua surgiu e novamente em casa. Na entrada um vaso, longe de um canteiro ou jardim qualquer. Uma parte ressecada, folhas pequenas caídas, espalhadas pelo chão. Entrei. Música, banho, taça de vinho enquanto preparava uma massa. Só eu.
Continuava recordando daquela manhã, o que era súbito permanente ficou. Perene na mente. Lembrei da minha manhã, do modo que acordara, aquele sentimento, percorri cada instante daquele momento mágico, olhei ao meu redor. Precisava mesmo de um rastelo.
Tudo aquilo era tão macio, bom. Tudo aquilo era tão… real. Tudo aquilo era mesmo minha vida. Já havia, como na entrada de casa, varrido muitas folhas secas, já havia cores, aromas, sabores, sons, imagens, luz. Reconheci que me dava bem comigo só.
Até então não havia percebido, só precisa de um rastelo quem tem um jardim.

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3 respostas a Por Baixo das Folhas

  1. Giuliani diz:

    “Não há sentimento, sensação que não possuam uma certa dose, que não tenham sido alimentados e trabalhados, também, por qualquer exagero da imaginação, por um preconceito, uma desrazão, uma incerteza, um receio. ” Nietzche

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  2. Silvane Diogo diz:

    Simplesmente demais, mesmo não o conhecendo pessoalmente, percebo o quanto vc é legal, o quanto vc tem o dom da escrita e ainda mais o que vc vive é algo muito próximo do meu viver……Que Deus continue te iluminando e fazendo vc expor essas tão lindas e maravilhosas palavras que fazem pessoas emocionarem. Parabéns!!!

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