Sal da Vida


Algum tempo havia se passado. Já vivia outra geografia, até o sol parecia diferente. As estrelas eram outras, não mais as conhecia, mesmo a face da lua. Novos engenhos não criava mais, nada de novo, até mesmo a terra agora era antiga. E das terras e tempos idos, nem bagagem trazia, e quais quer que fossem os pesos de agora, deixava para as mulas.

No empenho de ser em minha vida o sal da terra, com ele fui trabalhar. Da água que o mar ofertava, aprendi o sal dela separar. Puro, limpo, branco, e dele uma imensidão. Dunas de sal se formavam, nos troncos de árvores que alcançava formavam-se altas colunas brancas verticais.

Aprendi com os velhos salineiros o ofício que a poucos tinham a quem ensinar. Lugar onde todo o trabalho ainda é feito à mão, cuidado em cada detalhe, para que  mundo tenha sabor em sua vida. Trabalho duro sob o sol de cada dia, alma leve. À noite travesseiro macio, sono suave.

Eram vários os canais que trazia a água lá do mar. De lá eles vinham, e do lado de cá mal se dava conta de como. Eram artérias de água clara, veias, vasos que se capilarizavam e acabavam se transformando naquela imensidão branca, quase um deserto de sal próximo ao mar.

Com frequência redemoinhos se formavam, pairava no ar aquela massa branca suspensa pelo vento que depois a jogava em outro canto. O rancho, que tomei por casa, era alvo frequente daquele vento. E era assim que os dias se passavam.

Quando a noite caía, peixe na fogueira e, ao redor daquele clarão, histórias de monstros e seres que um dia habitaram aquelas terras e também terras distantes dali.

Aquele dia amanheceu diferente, leve, o vento corria fresco, sempre na mesma direção. As horas passavam, o sol caminhava no céu e o mesmo frescor persistia. O vento ainda soprando sempre, na mesma direção. Essa atípica combinação permitiu uma formação ímpar. Um imenso monte branco havia se formado, algo nunca visto ali até então.

Parei os olhos admirado com algo tão puro e belo que a natureza havia trazido como um presente. Fiquei ali olhando, parado. Fui lembrando que durante todo o dia, aos poucos, aquele monte foi se formando, lentamente, suavemente, por uma brisa leve de ar fresco, mas que durante um dia inteiro, em momento algum, o vento havia soprado em outra direção. E eis que ali estava formado algo tão belo.

Senti um ímpeto de ir em sua direção. Hesitei. Parado ainda continuei. Mas algum sentido maior havia para um presente tão ímpar da natureza. Caminhei, e ao pé daquele branco monte agora estava. Temi que se tentasse subir, ele pudesse se desfazer, novamente hesitei. Olhando tão de perto, não resisti. Descalcei os pés e tomei a galgá-lo. Fiquei admirado com a firmeza sob meus pés e lentamente pus-me a subir. De tão íngreme pedia a mim mesmo paradas de descanso. Persisti até, no alto, o topo alcançar.

Lá em cima sentei e chorei. Daquele alto pude ver o que antes não conseguia. As salinas, apesar de estarem ao lado do mar, com ele diretamente não mantinha contato. Os canais que diariamente os meus pés molhavam, de tão perto não os podia ver como realmente eram.

Sentado sobre os calcanhares, com lágrimas nos olhos, desvendei aqueles canais que pareciam sangue trazer para aquele imenso universo branco. E levantando os olhos até para além de onde começavam os canais pude ver a magia da vida. O Mar… Vermelho.

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