É Tanta Vida que Vem e Vai


É tanta vida que vem e vai.

É tanto destino a se cumprir

que quem é que seja que os trace,

deve vez ou outra se enganar.

 

Seria neste caso um perito quem nos guia.

Teríamos um único caminho acertado

e, disponíveis, tantos caminhos quanto

jamais poderíamos conhecer.

Aí a lógica  falia.

 

Faliu ou ao menos falhou.

Ao considerar tantas variáveis para uma

mesma função, seria a esperança.

 

Ao fundo, ao fim de tantas estradas

uma voz qualquer canta, num desfecho,

para onde foi, o que encontrou e o que

não pôde conhecer.

Como saber?

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Presente na Ausência


Zélia já nos encantava quando cantava seu fascínio pelo “silêncio antes do grito”, pela “pausa entre as canções” ou mesmo quando nos dizia que dela chamava mais a atenção “os detalhes do que os luxos”. Já Lulu nos leva ao fundo da alma quando canta que “não haveria som se não fosse o silêncio” e que “não haveria luz se não fosse a escuridão”. E na beleza da profundeza desse sentido alguém me pôs ainda há pouco. Foi algo como revelar-se na sua ausência, como dizer sem palavras, como ser acolhido antes que viesse o sentimento, como acertar o alvo ainda com o arco sem flecha.

E assim num disparo comecei a ver o que o tempo tem me trazido, mesmo estando eu ainda que escondido. Num dia, uma ligação trouxe de volta muitos vários amigos, noutro, numa fila, quase escondido, sou encontrado, ainda outro, um correio eletrônico inesperado me enche de esperança para algo que se perdia.

Parece-me que não sou lá muito bom em ler entrelinhas, mas é inegável, irrefutável o abraço dos amigos, o calor da esperança ou mesmo o enigmático franzir do nariz num sorriso. E qual o significado de cada uma dessas coisas? Será só meu este significado? Creio que mais rico seria se compartilhado fosse, se fosse bem mais além de meu. Assim teria liberdade de ser maior e me levaria junto e eu nunca seria o mesmo de um instante atrás.

Descobri que desejo ser encontrado em meu anonimato, e assim, naturalmente, como tantas coisas tem acontecido.

Sinto como tivesse cessado o tempo em minhas buscas. Não que elas tenham parado, mas me sinto acolhido na escuridão para ver a plena luz em todo o seu espectro, como tivesse no silêncio para que possa ouvir o som com toda sua pureza, como se me ausentasse para que estivesse presente àqueles que tocam a minha vida.

Muito para além de estar, isso traz o que sou.

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Ensaio


Compartilhar não é o bastante, não mesmo. Ao menos se estivermos presos à efemeridade a que nos submetemos muito tolamente. Quero e busco muito mais que isso, não basta somente o terno, quero a paixão; e tendo a paixão, é indispensável o amor, e tendo o amor, não basta o efêmero, quero o eterno. É uma escalada do bem. É tomar para si que a vida existe para que seja boa, para que haja paz.

Sim busco o eterno, o que o tempo não derruba. Sim, eu busco o que é bom, tudo aquilo que constrói. Sim, eu busco o bem, aquele que vem do amor à vida, aquele que está cravado no coração, contido na alma, que salta aos olhos em brilho intenso. E sim, busco o amor, mas um amor muito maior que eu.

Isso tudo eu não ponho no tempo, pois nele não cabe. Por isso preciso da eternidade, essa nossa origem, essa nossa casa, essa nossa natureza.

Lá onde não há início, em algum momento fui criado e lá onde não há fim ao fim não pertencerei.

Pois ora, então, se for para compartilhar, que seja para nunca acabar.

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A Força de Sansão


Tenho entendido mais a história de Sansão, que trazia em seus cabelos a sua força. Parti da premissa de que por mais forte que se seja, ninguém é capaz de acrescentar um dia sequer em sua vida, e que, de qualquer forma, posta nossa vida diante da eternidade, ela seria como a luz de um relâmpago.

Levando à abstração a ideia da força, pode-se considera-la como o fruto da sabedoria. Tem-se, então, a força do ser apoiada em seu intelecto, seu poder criativo, associativo, cognitivo. Características que ao terem o discernimento presente sobre elas aumentam em muitas vezes a força do ser.

Não obstante, como fermento agindo na massa, a sabedoria cresce com aprendizado, e este, por sua vez, vem com o tempo àqueles que se propõem e se dispõem a ele.

E este aprendizado só é possível ao vaso vazio. E a este mesmo vaso se faz necessário que se esvazie a todo momento. Só é possível na prática perseverante da humildade, no reconhecimento da miséria humana, da consciência de nosso tamanho dentro de toda a criação, da percepção do quão pouco conseguimos compreender observando tudo o que nos rodeia e do sentido que do pó viemos e ao pó retornaremos.

Em sendo que cada ser traz consigo seu drama pessoal que dá ênfases diferentes ao tempo ao longo de sua vida e que é a partir desse mesmo tempo que se pode ter aberta a porta do aprendizado, temos conosco um fio crescente à medida que nos abrimos a aprender. E esse fio pode se multiplicar, nos cobrir e até mesmo nos envolver e se tornar cada vez mais puro, nos tornando cada vez mais fortes em nosso ser.

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Ai ai ai


Apaixonei-me!

Ai que problema fui arrumar! Era hora de estar livre, era hora de leve me sentir. Logo agora? Ai, ai, ai, o que fui arrumar! Uns dizem que é assim mesmo que acontece, outros dizem que é coisa que não se controla. Ai ai ai, o que fui arrumar!

Estava ali, levando minha vida, uma palavra aqui, outra acolá, quando vi… já era.

Se bem que por bem hei de confessar que sempre houve uma quedinha. Ela sempre soube me encantar. Uma palavrinha aqui, outra acolá… ai ai ai, o que fui arrumar!

Há tempo percebo seus sentimentos, não posso negar. Não por mim, mas pela vida, pelo dia, as pessoas, coisa que sempre esteve ali a me encantar.

Suas palavras foram ficando mais frequentes, dali a pouco estavam me seguindo por todo lugar. Ah!, aquela energia! Ai aquele jeitinho de falar! Como ser indiferente? E ela, ardilosa, uma palavrinha aqui, outra acolá… de repente em todo lugar. Ai ai ai, o que fui arrumar!

E ainda, para piorar, há as tais convenções sociais. Mas como? Não hei de concordar. Se bem que algum motivo deve haver. É verdade que sinto uma estranheza. Eu tão velho! Ela jovem, alegre, viva, sorridente. Quanta vida naquela pessoa! Se arguido em o que ela seria em breves palavras, eu diria que ela é o próprio poema da vida. Ela seria como o verde para a natureza, o fruto para a árvore, o doce ao paladar. Ela me faz sorrir, às vezes chorar. Até mesmo chorar sorrindo. Quanta vida tem para dar!

Certa vez tentei forjar um encontro, daqueles que ela não sabe, sabe? Era lugar público, teria muita gente. Mas acabei por não ir. Mas já tem um tempo isso. Agora, uma palavrinha aqui, outra acolá, e veja só no que tinha que dar, não me separo mais dela. Quando não está ali ao alcance do meu toque, como se diz, o preto no branco, acabo por encontrá-la pela internet.

E ela tão jovem, tão viva! Que bela é ela!

Incomoda essa diferença de idade. E tem essa coisa da sociedade, esta que às vezes não entende sequer uma palavra. Deveriam também ouvi-la, saber o que tem a dizer.

Mas é assim, uma palavrinha aqui, outra ali e a muitos vai a conquistar. Ai ai ai, o que fui arrumar!

Ela é o próprio poema. É vida, jovem, linda, bela! Ela é Adélia.

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Aprendi


Aprendi com o Aventureiro que quando sobre nós se abate algo inesperado, é humano e natural que venha o desespero, que o chão suma de nossos pés e que acreditemos, só naquele momento, que para tudo aquilo não há solução.

Aprendi que este momento é a perfeita oportunidade de pedirmos ajuda, procurarmos um ombro, um abraço, uma palavra acolhedora, um cuidado especial.

Aprendi com o Aventureiro que tendo a ferida aberta é o momento da dor, de tremer nosso corpo e nossa alma com aquele calafrio que não podemos evitar. Mas até aí são coisas que temos que viver, simples assim, sem merecer nossa preocupação.

O Aventureiro ensinou-me bravamente que se for para se preocupar, que seja com a cura. E, vindo tal cura, que a preocupação se vá sem demora.

Não obstante, após curado, como uma sutura para a ferida aberta, vem o que é um processo de cicatrização.

Em mais uma clara demonstração de sabedoria, o Aventureiro me mostrou que durante este período é bom, saudável e curador, que estejamos um pouco recolhidos. Importante ser “um pouco” porque as outras coisas da vida precisam continuar.

Passado esse período, como a maioria das suturas, chega a hora de tirar os pontos. Aprendi com o Aventureiro que este é o momento final. Aí vale a última lágrima, um último sussurro, um último susto e a última pontada de dor ao se puxar o fio do ponto. E acabou.

Tão iluminada criatura me ensinou que daí para frente é outra história.

Aventure-se, Aventureiro! E continue sempre a me ensinar.

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Asas, abri-las


E é mesmo assim, é como criar asas e voar. Do alto, da ponta, olhar à frente e sentir em um pequeno instante elas já abertas.
Não faltava nada além de em um salto voar.
Nada de queda, nada de medo. Abertas, para cima me levaram e à frente segui. E como em um mundo novo, o coração se lançava.
Sensações diversas, diferentes, tão novas quanto a mente. A beleza fluía, me transpassava, me contagiava. O ar puro, leve, azul. Choque só do calor do Sol com o frio do vento. Lá de cima podia ver para além do horizonte habitual. E o olhar seguia pistas, buscava marcas, alguma referência. Mas elas já não haviam, não mais as mesmas, não sob o mesmo ponto de vista. O horizonte se expandia a cada voo.
Lá conheci as lágrimas de diamante, que congelam o passado em seu lugar e se tornam sua joia mais verdadeira, eterna.
O vento em rajadas, o frio na pele, o calor na alma, a leveza do corpo e aquelas asas. Nada pesava, tudo era leve.
Ao tocar os pés nos chão o sentimento já não era o mesmo, e não poderia mesmo ser, já era tudo diferente. Era mais, era todo, era tudo. Era tarde e manhã, era o rio e o mar, era a pedra, a terra e o ar. Era cor, era via. Sou meu Eu em mim.

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